domingo, 13 de abril de 2014

Ensaio - Para além do seu tempo


John acordou e olhou para o relógio. Eram 4:32. Desta vez tinha conseguido dormir um pouco mais de tempo. Uns redondos 23 minutos. Cansado, sentou-se na cama. Olhou para o lado e a outra metade da sua cama estava vazia. Um espelho da sua vida e alma. Vazia. Por mais que fechasse e abrisse os olhos a realidade era imutável ..... apenas nada ….. um vazio.
 
Lentamente levantou-se e dirigiu-se para a casa de banho. Parado no lavatório, abriu a torneira e deixou a água correr um pouco. Colocou as mãos debaixo do jorro fresco que corria e depois de algum tempo, levou as mãos em concha à cara, refrescando-se como podia. Após algumas repetições levantou a cabeça enquanto as suas mãos procuravam a toalha. Viu-se ao espelho. Á sua frente estava uma figura que reconhecia em feições mas não em alma ...... essa estava morta ..... quebrada.
 
Tão lentamente como ali tinha chegado, dirigiu-se até á sua varanda. Um alpendre de sonho, outrora local de muitos momentos de felicidade. Já lá fora, fez uma festa ao seu fiel amigo que o seguia desde o quarto. Umas lambidelas trouxeram-lhe um fugas leve sorriso aos lábios, mas apenas isso, genuíno mas fugaz. Encostado a um dos postes, observava o horizonte que lhe surgia aos olhos. O dia certamente não tardaria a raiar. Mais um dia que sentia não ser seu ..... vivia num tempo emprestado que não tinha pedido e não queria, mas fora-lhe dado ou imposto ..... um prolongamento depois do apito final.
 
A vista era magnífica. Estava no alpendre da sua casa de Malibu, com escadas de madeira que davam acesso direto à praia de areia branca e limpa. Mais um pouco à frente, o oceano beijava ritmadamente a praia, originando uma visão tranquilizante e um som acolhedor. Para qualquer um menos para John. Aquela casa tinha sido o sonho de uma vida a dois ..... mas o outro não era o simpático e amável Max ..... não era este o sonho, era apenas a realidade. A sua dura realidade.
 
Fazia agora 6 anos que tudo na sua vida mudara ….. após aquele dia, culminar de todo um ciclo, nada era como antes. Na sua mente apenas algumas perguntas sem respostas ….. porquê? ..... porquê ela? ….. porquê eu? ..... porque não podemos trocámos de lugar ..... porque não pude eu escolher quem ficava e quem ia? ..... porquê?
 
Demasiados porquê sem resposta …..
 
Á sua volta via todos a correr desalmadamente para empregos que não gostam, a voltar para casas onde não querem estar, a aspirar por um ideal ou sonho de realidade que não a sua. Homens e mulheres com o sonho de um amor idílico que se calhar nunca iram encontrar e, enquanto procuram, perdem momentos que se tivessem ponderado, talvez tivessem tomado decisões diferentes ..... talvez.
 
Mas esse não era o dilema ou a frustração de John ..... ele tinha sido verdadeiramente feliz ..... tinha ...... e agora, em pé no seu alpendre de sonho, não era capaz de ser feliz ..... a sua vida tinha terminado e vivia um tempo que sentia não ser seu. Já conseguia sair com amigos e esboçar alguns sorrisos, mas não era ele ..... era um mero prolongamento de um tempo que não era o seu. Que não sentia ser seu.
 
Vivia os vários momentos de alegria e tristeza sem qualquer constrangimento ou dilema moral ..... apreciava o lado FIXE da vida no que podia, por mais fugaz que esses momentos fossem ..... sem dilemas morais ou restrições de uma sociedade de valores em que é mais o que se apregoa do que outra coisa. Sem grilhetas sociais.
 
Naquele início de manhã, John olhava para o horizonte ..... vivia um tempo que não era o seu ..... e agora?