terça-feira, 15 de setembro de 2009

Para quem sabe

Ontem tive oportunidade de fazer mais um almoço relaxado com um amigo, e vou usar uma expressão usada por ele, que achei uma bela descrição:

“... tanto quanto podemos classificar como amigo alguém que aprendemos a respeitar e a estimar pelo estímulo e desafio intelectual que sistematicamente nos coloca, pelo apreço colocado nas tertúlias havidas (seja pessoalmente, seja à distância), mesmo que, na verdade, não nos conheçamos lá muito bem (não somos visitas de casa um do outro, nem nenhuma outra dessas agradáveis mundanidades que ritualizam o processo de reconhecimento social e apreço mútuo).”

Como poderíamos ter ido almoçar a qualquer lado, e por nenhuma razão em especial, fui eu ter com ele. Dado o local de encontro, acabámos por ir ao Espelho de Água por cima do Parque Eduardo VII, local que eu gosto muito e ele não conhecia. É um espaço tão agradável que nos esquecemos que estamos no meio de Lisboa. Especialmente para quem tem o prazer da tertúlia como nós, o tempo acaba por passar sem darmos por ele. Foi um belo almoço. Num dia agitado, vivido a 200 à hora, é um bálsamo à nossa mente.

Lisboa está cheio de pequenos locais como este, conhecidos de vários mas não de tantos para que estejam superlotados. Recentemente estive com uma amiga à noite no miradouro do Bairro Alto a apreciarmos Lisboa ..... Alfama, Mouraria, Castelo, etc. A nossa cidade tem locais maravilhosos para quem conhece. Maravilhosos.

Um outro local também com uma beleza especial é o Porto. Tem sítios lindos, apesar de pessoalmente gostar mais do lado de Gaia, uma vez que à noite naqueles bares e restaurantes temos uma vista fabuloso ..... o Porto à noite todo iluminado ..... parece tirado de um postal ..... espectacular. Acredito que quase todas as cidades tenham os seus lugares de encanto, esperando que sejam visitados e apreciados.

Podemos olhar para uma cidade e ver apenas o seu transito, os seus prédios bonitos ou degradados, o que quer que seja, mas existem sempre locais que parecem ter sido perdidos ali ..... prontos a ser apreciados.

O que é belo deve ser apreciado ..... deve ser desfrutado. Vale a pena conhecer a nossa cidade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As longas saias do parlamento

Depois de um breve período em que alguns dos nossos políticos, mais especificamente os menos honestos, se preocuparam com as consequências dos seus actos, estamos a voltar ao tempo da impunidade.

Tirando o único desgraçado que foi considerado culpado, tendo de (eventualmente) cumprir pena efectiva .....por acaso o que mais obra tem ..... os restantes estão com pena suspensa. E para além das demoras que legalmente o nosso sistema de justiça já permite, agora ainda podem (e fazem-no) alegar imunidade em tempo de eleições. É sempre a somar tempo ..... até à tão desejada prescrição.

Mais do que uma justiça, o que nós temos é um sistema. Um sistema judicial que embora até possa ter sido pensado para proteger o inocente, o seu lado visível é sem margem para dúvida a protecção dos culpados. O recurso não inocenta, apenas adia ou altera a sentença ..... se o advogado não tiver a arte e o engenho de arranjar uma qualquer falha da lei ou do processo para o fazer terminar.

Este ano assistimos a um avanço ..... pela negativa ..... de todo este sistema. O PSD, e acredito não ser o único, coloca elementos que serão julgados por vários crimes, não um ou dois refira-se, em lugares elegíveis no parlamento. Para além da imunidade e paragem das investigações enquanto durar as eleições, depois de serem eleitos apenas terão de responder se o parlamento autorizar.

Onde está a Verdade nestes processos? Onde fica a ética dos partidos, todos eles, na recorrência destas situações?

Será que não podemos copiar a justiça americana? O Maddoff já cumpre os seus 150 anos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Reduzir tudo a um numero

Recentemente estive numa discussão teórica sobre indicadores de avaliação de desempenho de uma área. A discussão foi decorrendo naturalmente até ao aparecimento de um indicador diferente dos restantes. Era um indicador qualitativo.

Um dos grandes “entraves” à inteligência e desenvoltura humana são os pressupostos. Formatada a mente para um determinado enquadramento, ela tende a ficar presa aquela realidade e a não se conseguir “soltar”. Dá-se voltas e voltas, mas os pressupostos de partida acabam sempre por ser idênticos, o que condiciona irremediavelmente o resultado final.

Quando se materializa tudo de forma numérica, como os resultados operacionais, o nível de concretização, o volume de vendas, etc, a nossa mente fica presa ao lado numérico. No caso das empresas, isso é fácil de acontecer devido à área de estudos dos seus quadros (matemáticas). Se aparece um indicador qualitativo, a tendência humana (ou de gestor), será tentar converter isso em algo numérico. Materializar um sentimento. Reduzir a um número algo subjectivo. Cometer um erro.

Nas nossas organizações tem de haver espaço para as perguntas e os indicadores de SIM e NÃO. Substanciados em critérios o mais definidos possíveis, mas às vezes apenas isso.

Uma organização não pode ser gerida por números.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Presos ao devia

Com a proximidade das eleições, temos assistido a debates e entrevistas aos partidos com assento da AR. Como é natural nestas andanças, o governo enaltece os seus feitos como inequívocos e a oposição como desastrosos. É o normal e o espectável.

A oposição de esquerda, presa aos seus dogmas, continua a defender os chavões que fazem parte de si e que os seus apoiantes não perdoariam se fosse de outra maneira. Sem novidades. Entre estas, está a questão da complementaridade do combate às listas de espera por entidades que não os hospitais públicos. A sua repudia é tão grande que nem a sugestão de se iniciar com as Misericórdias pelo CDS/PP é acolhida.

Se todos assumimos que a entidade oficial não é capaz de satisfazer a necessidade, porque razão não se complementa o que falta de outra forma .....pode ser por pouco ou muito tempo, mas é o necessário neste momento. Parece-me obvio.

Porque ficar preso ao devia?

sábado, 5 de setembro de 2009

Procura-se “Amante”

Recebi de uma amiga um texto do psicólogo Jorge Bucay intitulado de Procura-se “Amante” que considero magistral e que com a permissão dela, o transcrevo para este espaço.

“Muitas pessoas têm um amante, e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.

Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança. Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"... além da inevitável receita do anti-depressivo do momento. Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti-depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!

É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho. Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas?!".

Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam nunca mais. Às que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir. O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.

Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...

Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"?

"Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastarmo-nos do que é gratificante, observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva. "Ir vivendo" é adiar a possibilidade de viver o hoje, fingindo contentarmo-nos com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.

Por favor, não se contentem com "ir vivendo". Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida.

Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.

A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental: - Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida. ”

Eu perdi a minha “Amante” e com ela o prazer da vida ..... dura realidade e facto irreversível ..... mas aos poucos e poucos vou tentando incutir em mim a frase com que a Ana mais nos brindava ..... Olhem sempre para o lado FIXE da vida!

A vida tem estranhos acasos ..... ontem relia este texto, vi um spot (link) e acabei na televisão a colocar-me do “corpo” do Nicolas Cage no filme Cidade dos Anjos ..... tudo num único dia. Coincidência de eventos ou intervenção da mais bela estrela no firmamento ..... não sei .....mas também não é relevante .....

..... Olhem sempre para o lado FIXE da vida ..... começo a acreditar nisso, meu amor .....mas tenho tanta saudades tuas .....

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A primeira mesada

Em breve o filhão irá entrar no 5º ano e tal como prometido, terá direito à sua mesada ou semanada. É algo que ele anseia pois mais que a necessidade, dá-lhe a sensação de já ser crescido (o tal pré-adolescente que uma amiga minha falava). Permite-lhe poder comprar algumas coisas quando quiser e algo que não pode ser descorado, permite-lhe ter o mesmo que os seus amiguinhos. O mesmo que é possível dentro da nossa condição económica, obviamente.

Muitos são os pais que tal como o meu próprio pai, são contra as crianças andarem com dinheiro, seja para não fazerem asneiras como comprar tabaco ou droga, seja para não serem roubados ou tão simples para que o dinheiro não lhes suba à cabeça. É uma opinião válida e que tem os seus fundamentos, mas que para já não irei seguir. Estou a prever várias lições de moral nos próximos tempos.

No caso do filhão a opção é dar-lhe a semanada para os seus gastos, responsabilizando-o por ele juntar para o que quiser. Ou seja, passa a receber mesada mas depois os seus pedidos ficam condicionados à sua gestão, no que fizer sentido. Acho fundamental que ele comece a dar valor desde já ao dinheiro e que não é só querer e comprar, é preciso saber gerir e poupar. Embora a minha irmã pense de maneira diferente, eu considero que os pais não são a Santa Casa da Misericórdia ..... é bom que o meu filhão perceba já isso desde o início.

Como considero fundamental saber poupar, o filhão terá a sua semana com um esquema de poupança associado. No fim-de-semana, todo o montante em sobra da semana que ele colocar no mealheiro da poupança, o pai irá colocar lá idêntico valor. Haverá um segundo mealheiro que é para ele juntar dinheiro para comprar algo que queira mais tarde, ou que necessite de juntar semanadas. Se se habituar a poupar desde já, serão hábitos e princípios que irão perdurar para a sua vida, com vantagem para ele.

Estou curioso para perceber a relação do filhão com o dinheiro e a gestão que fará do mesmo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Fora de horas

Á hora que escrevo este texto estou sentado no bar de um hotel de 4 estrelas no norte. É tarde e tal como em outras noites como esta, não tenho sono e sinto necessidade de escrever. É o meu bálsamo e a muleta do meu desequilíbrio.

O engraçado deste texto é que me imagino na pele daqueles escritores eruditos, observando do seu canto invisível o movimento que a esta hora este local possui. Se fosse o hotel em frente seria parecido ..... isso não é relevante ..... é apenas assim ..... é este hotel ..... estou aqui ..... observo ..... escrevo.

A entrada do hotel mergulha numa tranquilidade imensa, apenas rasgada por ocasionais sons de fugazes passos. Almas errantes de saída para algo fazerem, ou então apenas almas que algo fizeram e agora anseiam por um justo descanso. No bar, os empregados aguardam que o animado grupo decida alegrar outras paragens. No restaurante, agora fechado, um jovem casal discutia as agruras dos deveres profissionais, trocando ideias ou meros lamentos entre a constatação do obvio e a procura de apoio ou justificação do outro lado da mesa. Talvez apenas uma palavra ..... como às vezes esperamos apenas uma simples palavra. Na outra ponta da sala, como parece ser algo normal nestes hotéis, uma bela jovem aguardava sozinha por algo ou alguém ..... hoje não parece ter sorte ..... há dias (ou noites) assim.

A música que há não muito tempo era calma e convidativa, agora é insinuante ...... desapareçam que queremos fechar! A música invade e perturba a minha tranquilidade ..... torna-se num vento que abana a minha pena ..... mas estoicamente resisto ..... continuo a divagar e a observar ..... perdido ..... inebriado ..... ausente ..... e fica uma mensagem suspensa no éter da nossa geração ..... “espero-te”

Na internet oiço e volto a ouvir a música “Vida em câmara lenta” que encontrei enquanto procurava algo que nem eu sei que procurava .....