quarta-feira, 24 de agosto de 2016

E se ...?


"Querida Claire ‘e’ e ‘se’ são duas palavras tão inofensivas quanto as palavras podem ser.
 
Mas coloque-as juntas lado a lado e elas têm o poder de perseguir você pelo resto da sua vida.
 
E se?
E se?
E se?
 
Não sei como sua história terminou mas, se o que você sentia então, era amor verdadeiros, então nunca é tarde demais.
 
Se era verdadeiro então, porque não seria agora? 

Você só precisa ter coragem para seguir seu coração.
 
Não sei como é um amor como o de Julieta, um amor pelo qual deixar entes queridos, um amor pelo qual cruzar oceanos...
 
Mas quero acreditar que, se um dia sentisse esse amor teria coragem de agarra-lo.

E Claire, se não fez isso, espero que um dia o faça.”
 
Com todo carinho.
Julieta"
 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

No teu silêncio

 
A vida é feita de pequenos nadas. Por mais que queiramos muito algo, a verdade é que a frase “são precisos 2 para dançar o tango”, não é uma frase vã ..... é uma constatação.
 
Acordei ..... virei-me na cama 50 vezes antes de conseguir voltar a adormecer ..... sozinho ..... nu de corpo e alma ..... nu de companhia ..... nu de vontade de me levantar ..... sozinho ..... abandonado ..... sem ti .....
 
Perder algo que gostamos é difícil e sabemos o que custa pelo que deixámos de ter ..... mas como gerir a dor de perder algo que nunca foi nosso? ..... como constatar que os sonhos e a imaginação nunca serão mais que isso ..... sem hipóteses de saber o que era verdade e o que era apenas imaginação? .... perder sem nunca ter tido ..... estranho
 
Recordo as mensagens que te enviei ..... e de retorno apenas o silêncio ..... maldito silêncio .....
 
PS – trata-se de apenas mais um ensaio ......
 
 
 


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Não desistas

O ar rarefeito escasseava, o que o obrigava a aproveitar cada respiração. Aquela altitude era sempre difícil respirar, excepção feita ao guia, homem já batido naquelas andanças e aos sherpas que os acompanhavam. Era como se tivessem garrafas de oxigénio por debaixo dos seus Kitycows. Mas não para ele. A sua rotina de Nova York não era naquele registo. Respirava com dificuldade. Ofegava.

Enquanto descansava um pouco, a descer para a 2ª base para pernoitar, recordava a graçola que dizia quando nevava e a temperatura estava abaixo de 20ºC … Ao pé do Central Park, o Everest deve ser um passeio de meninos … onde estava agora o Starbucks mais próximo, onde um Latte Machiado bem quente correspondia ao seu maior desejo naquele momento?

O vento frio era como uma corrente de facas afiadas. Mesmo totalmente protegido, havia partes da sua cara que nada tinham, e eram essas que o massacravam. Mesmo com 3 pares de meias grossas, aquele bocadinho de pele exposta faziam a razia da sua temperatura interna. Regelava. 

Não estava só. Olhava para o resto dos elementos do seu grupo, todos presos em fila indiana ao guia aparentavam estar todos na mesma situação. No mesmo desespero. Tinham formado um grupo engraçado. Cinco suecas, cada uma delas mais gira que a do lado, um casal neozelandês e dois gêmeos franceses que, apesar de passarem muito do seu tempo nos Alpes, segundo eles, pareciam ser marinheiros de primeira água. 

Conseguiram voltar mesmo no limite do aceitável. Tinham demorado mais 2 horas que o previsto e era já a segunda tentativa de atingir a base seguinte. O casal neozelandês já tinha feito alguma pressão para não voltarem a fazer aquela 2ª tentativa mas, por força do argumento dos restantes, haviam anuído à saída. Como se sentiam arrependidos. A montanha claramente lhes dizia que aquele não era o seu lugar. Que estavam a mais.

Fã incondicional do livro “O monge que vendeu o seu ferrari”, queria escrever um livro inspirador e com suporte a uma aventura real. Precisava daquela experiência. Precisava de se superar. De testar os seus limites. Talvez tivesse ido longe demais e embarcado num desafio grande demais para si … um passo maior que a perna … mas agora era tarde. Agora não podia desistir.

Quando a hora chegou, recolheu à sua pequena tenda, que partilhava com 2 das novas amigas. O conforto da tenda transportava-o para as quentes paragens de um oásis, em muito ajudado pelo facto de dormir no meio de ambas, aquecendo-as e sendo por elas aquecido. Era um bónus que a viagem lhe tinha dado. Haviam já agendado uma semana em NY onde as iria receber e mostrar a cidade, mas isso é outra história. Por agora, era repousar que de manhã, em função das condições climatéricas, haveriam de decidir seguir ou regressar à base. A glória da conquista da montanha ou a vergonha da derrota por esta. Amanhã decidiriam.

Aninhou-se nas suas parceiras e adormeceu de cansado ao som dos seus pensamentos … não desistas!

sábado, 16 de abril de 2016

E agora, Mrs Jones?


Era tarde, muito tarde. A televisão passava um filme nostálgico, daqueles de fazer chorar as pedras da calçada. Era já antigo, quase a pedir uma reciclagem, porém, continuava a ter ainda aquele encanto especial. Era uma daquelas histórias que fazia sonhar. Lá longe na cozinha, no fogão, a chaleira apitava viva e freneticamente. Era tarde.

No pequeno sofá Nina repousava e ronronava. O seu rabo oscilava e chicoteava a almofada num ritmo pausado mas constante. Longe iam já aqueles dias de juventude irrequieta que tantos pequenos estragos haviam produzido, especialmente no sofá. Era uma companheira de longa data, muitas vezes confidente. Ouvia e ficava a fitar, fechando os olhos como que em sinal de apoio. Uma boa companheira.

Abriu o armário por cima do micro-ondas. Na primeira fila da prateleira de baixo, metade era ocupado por caixas de chá. Havia chás para todos os gostos e feitios. Desde os tradicionais de pacote, que lhe faziam lembrar os fast-food, passando pelos ingleses que havia trazido na pequena loja ao pé de Russell Square, até aos mais exóticos trazidos pela sua amiga da última viagem feita à India. Optou por uma chá de infusão de Jasmim. 

Na gaveta por debaixo do fogão encontravam-se os principais acessórios de cozinha. Depois de remexer um pouco, encontrou o que procurava. Agora já podia encher de chá para colocar dentro da chaleira. E assim fez.

Na sala, a pequena mesa de apoio em madeira de mogno já estava composta com um pequeno recipiente de água fria, algumas bolachas “típical British” e dois guardanapos, a par de dois pacotes de açúcar. Há muito que tentava abolir esse mal amado ingrediente mas o hábito não lhe permitia. Lembrou-se dos resultados do último check-up e da promessa que havia feito ao seu médico de família, mas o “para a semana começo” ainda estava válido. 

O filme caminhava já a passos largos para o seu desenlace, mas certamente a seguir viria outro. Encostou-se a olhar para Nina, mais que para a televisão enquanto a sua mente divagava. Estava longe, mas não tinha pressa de voltar. O chá estava ainda muito quente e não lhe apetecia juntar água fria … era tempo de esperar.

Reclinou-se um pouco mais no sofá.

E eis senão quando um som familiar. O telemóvel vibrou ao som de um pato … “Quac, Quac” … entrara uma nova mensagem … tremeu … assustou-se … não estava à espera. Num gesto involuntário, hoje em dia normal e instintivo, jogou a mão ao bolso do robe e agarrou o telemóvel. Leu  mensagem que acabava de chegar e ficou a olhar para ela … por esta não esperava!

O chá arrefecia na chávena, na televisão anunciavam o filme que iria começar e Nina, entretanto acordada pelo som do telemóvel, havia já pousado a cabeça e fechado os olhos … E agora Mr. Jones? … pensava para si … e agora?





sábado, 2 de abril de 2016

Seguindo

 
Lá ao fundo, tornava-se impossível dizer onde terminava o mar e começava o céu. O azul tépido da água confundia-se com o azul nublado e, até onde a vista conseguia alcançar, tudo era mar .... e tudo era céu.
 
Ismael continuava sentado no pontão havia já muito tempo. Os seus cães já haviam explorado todas as redondezas, todas as covas de coelho num raio de 50 metros, todos os arbustos e repousavam agora calmamente ao seu lado. De vez em quando um barulho qualquer ou uma gaivota mais atrevida faziam um deles levantar a cabeça, mas rapidamente olhavam para o impávido dono e voltavam a deitar a cabeça. O sol ainda estava muito agradável, a brisa leve e um calor que os puxava para os braços de Morfeu. E eles deixavam-se ir sem grande resistência.
 
Ismael pensava em todas as viagens que havia feito, todos os portos que havia conhecido, todas as histórias e os bons momentos que guardava agora na sua memória. Todas haviam sido feitas por mares calmos, e agradecia a Deus por isso. Havia decidido deixar de se fazer ao mar e refugiar-se no campo ou na cidade. A sua vida de aventuras havia terminado e ele usava aquele momento para recapitular tudo. Reviver os bons momentos e pensar na experiência ganha pelo que não havia corrido bem. Uma espécie de sumário executivo.
 
Do local onde se encontrava conseguia ver o porto e a azafama que por lá ia. Claramente na uma zona mais exclusiva, onde um cruzeiro se preparava para zarpar, com vários turistas entusiasticamente a dizer adeus a tudo e a todos na esperança de um adeus de volta do cais. Porque será que achamos que haverá sempre um último adeus e apenas não partimos. Porque o barco não se limita a ir, sem adeus ou um qualquer “até um dia”?
 
Mais perto de si, algumas pequenas embarcações preparavam-se também elas para sair. Uma em particular dava ideia de ser uma pequena escuna que partia em passeio, certamente por alguns dias pelo número de sacos que a sua tripulação havia juntado na plataforma. Viam-se caixas de mantimentos, sacos de velas e afins. Notava-se o capitão a dar indicações para os dois gaiatos que preparavam as velas. Havia ali ordens claras a serem transmitidas e mãos eficientes, pelo menos assim parecia, a acatar essas ordens. Tirando um gato que repousava na coberta, todos os demais faziam algo.
 
Os seus olhos prendiam-se naquele quadro. E com aquela imagem divagava nos seus pensamentos. Pensava nas suas próprias viagens, desde as mais marcantes às últimas. Recordava com uma certa nostalgia, como aquelas pessoas que têm saudades antes mesmo da partida. E lembrava-se de uma frase ouvida “ter saudades não é bom” ..... será? Só se for de viagens atuais pois que de boas memórias temos sempre saudades. Não é bom porque representam algo que não existe mais, mas é ótimo por serem isso, recordações de bons momentos vividos ..... e no final, a vida resume-se a isso ..... aos bons momentos passados que fazem sentido ter vivido.
 
Recordava a última que quase havia sido curta demais para deixar memórias, e de onde havia decidido sair prematuramente, diria quase que clandestinamente. Fez-se esquecido no porto. Havia preferido embarcar noutra viagem e daí a mudança no primeira oportunidade possível. Mas nunca chegou a embarcar para a sua última viagem. E isso deixava-o estranhamente contente.
 
Tudo na vida acontece por um motivo. Guardava ainda nas mãos o livro que havia comprado para aquela última viagem, porém, a história que lhe vinha à cabeça não era essa. A sua mente divagava e imaginava o que Ishmael teria sentido antes de entrar no Pequot. Porque motivo não teria ele desistido daquela viagem que tão maus presságios aparentava. Imaginava-o ali, prestes a entrar e a pensar, como se revia a si mesmo. A tentação de partir numa nova viagem pode ser grande, porém, quando tudo aponta para ser um mar de tormentos e borrascas, há viagens que não devem ser iniciadas. No fundo sabia-o e por isso havia arrepiado caminho a tempo.
 
Não se sentia nenhum lobo do mar, mas sabia que havia tomado a decisão certa. Estranhamente a sua última viagem era aquela que nunca chegaria a fazer. Ironias do destino.
 
Uma gaivota mais barulhenta trouxe-o de volta à sua realidade, à medida que o sol descia calmamente sobre a linha do horizonte. Os tons de laranja refletidos nas nuvens pareciam uma fotografia de Photoshop e assim ficou mais um pouco a observar e a admirar tamanha beleza. Aproveitou para fazer festas aos seus meninos enquanto os últimos raios brilhavam e o cinzento começou a surgir, fazendo-lhe notar que já começava a ficar frio. Um bocejo e duas lambidelas sentenciaram a tarde. Eram horas de se fazer ao caminho.
 
Levantou-se calmamente. Na mão tinha ainda o livro embrulhado. A sua vida no mar tinha terminado e aquele livro significava para ele uma última amarra. Não o iria ler, por isso, não fazia sentido guardar algo que nem uma memória constituía. Nem boa, nem má. Olhou para ele uma última vez e para o horizonte e, sem perder mais tempo, deitou-o no caixote de lixo mais próximo.
 
Seguiram juntos pela costa de volta à cidade ..... o mar será sempre uma parte da sua história, mas sem mais viagens, apenas uma longa coleção de bons momentos vividos, que é o que vale a pena guardar.
 
 


quinta-feira, 31 de março de 2016

A vida é bela

 
Este é nome do filme que provavelmente mais me marcou na vida. Penso até que já o havia referido neste espaço, mas isso não é sequer relevante. A verdade é que é, e este é o filme que me vem à cabeça nestes momentos mais difíceis e que serve de inspiração. Acho que este texto, muito mais pessoal do que os que tenho vindo a publicar neste espaço, serve para isso mesmo. Uma inspiração ..... preciso desse algo neste momento.
 
A vida é o que é, e resultado do que nos impõem, seja Deus ou um badameco qualquer que tem esse poder, e as opções que fazemos. Mesmo o que conseguimos com o nosso esforço é uma opção ..... optamos por nos esforçamos por algo que queremos ou acreditamos. Fazemo-lo quando achamos que o custo justifica o proveito, ou então, por uma questão de princípio, o que nesse caso transforma o custo em algo irrelevante.
 
O desistir de algo, mesmo que seja um capítulo importante da nossa vida tem também a ver com isso ..... opções ..... optamos por não querer mais algo ou apenas porque não queremos mais estar sujeito ao custo de algo, como por exemplo a perda ..... opções que tomamos ..... umas até as revertemos mais tarde, outras ..... não ..... opções.
 
Mas não somos uma ilha isolada e, por vezes, quando outros dependem de nós, temos de ir buscar forças onde não as temos ..... temos de mostrar um sorriso mesmo estando completamente dilacerados por dentro ..... e essa é muito a história do filme.
 
Mas a vida não é um argumento de um filme, em que o resultado está definido muitas vezes à partida e é apenas como se vai do princípio escolhido ao fim predestinado ..... onde é tudo uma questão de como se escreve para maximizar o resultado, vulgo lucro e popularidade .... a vida é tão mais do que isso .....
 
..... e é tão difícil às vezes ..... é tão difícil conquistar mais pontos para o tanque ..... dos cacos fazer pontos é duro .....
 


sábado, 26 de março de 2016

As escolhas de Sofia

 
Sofia passeava ao longo das margens do rio Dâmboviţa. Havia jantado com os amigos perto da Praça da União, mas apesar da hora tardia, precisava de ar. Deixou-os na conversa ao café e partiu. Atravessou para o outro lado do rio e começou a sua caminhada. Nos prédios adjacentes, haviam ainda várias casas com as luzes ligadas. Sofia conseguia observar o que lá se passava e imaginava as histórias. Uma história em cada janela.
 
Parou ao fim de alguns metros num pequeno miradouro por cima do rio. Olhou para a outra margem e vislumbrou a Biblioteca Nacional, onde havia estava naquela manhã. Um edifício branco com uma enorme fachada de vidro que albergava tantos livros de poetas como ela. Imaginou alguns deles a sofrer de amores como ela, talvez sentados naquela margem enquanto deixavam a escrita fluir.
 
A sua cabeça estava a mil e precisava de desligar. Deixava a sua mente divagar enquanto imaginava o texto que iria colocar no seu diário. Tentava, mas não conseguia. A dor era demasiado grande.
 
Lembrava a cara de Susi, a conquista mais recente de um dos seus amigos, que lhe havia segredado algo ao ouvido durante o jantar. Susi era uma hospedeira americana que fazia vários voos de e para Las Vegas.
 
- You have lost!
- What? Sorry, I wasn’t here
- I always know when someone wins or loses when returning from LA
- And?
- You lost! …. It’s all over your face
- We are a long way from LA, my dear
- We may …. but your face says it all ….. and I’m never wrong
 
Sofia recordava agora aquele diálogo, à medida que observava um casal a passear um pouco mais à frente, parando de tempos em tempos para um beijo. Como Susi estava tão certa. Como se imaginava na figura daquela jovem .... havia feito uma escolha .... talvez tivesse de viver com ela.
 
Todas as conversas e mensagens trocadas vinham à sua mente. Sabia que estava certa em tudo o que tinha dito. Em tudo. Sofia nunca se enganava. O seu sexto sentido era exímio e nunca a enganara .... bem ..... exceto no passado e em várias ocasiões que ele realçou ..... e a sua raiva por ele cresceu ainda mais ..... como se atrevera ele a mostrar que ela estava errada! Que audácia!
 
Havia feito o que tanto criticava às suas amigas ..... julgara-o mesmo sem provas ..... a sua insegurança e o seu medo haviam-lhe turvado o juízo e ela sabia-o.  Acusara-o de tudo e mais alguma coisa, não ligando nada ao que ele havia retorquido. Outra afronta dele, negar o que a sua certeza sabia. Como se atrevera!
 
Mas naquele pequeno recanto do mundo, a dor e a tristeza bateram-lhe forte naquele momento ..... a sua impetuosidade haviam-lhe ditado as suas escolhas ..... relia no telemóvel aquela ultima mensagem recebida. Sabia que ele não mais lhe escreveria ..... essa era uma certeza que tinha. Se algo ainda houvesse para a salvar, sabia que teria de partir dela pois ele havia baixado os braços, desistido.
 
Pensava nisto tudo e no que queria fazer e ser na sua vida ..... e voltou ao seu passeio para vaguear um pouco mais antes de voltar ao hotel ..... a sua escolha estava feita e estava na altura de voltar para casa ..... assumir as suas opções ..... a sua escolha.

terça-feira, 8 de março de 2016

E se .....

 
Carolina olhava para o mar. Já havia estado ali tantas vezes que nem conseguia imaginar um número. Cem ..... mil .... dois mil .... na realidade, isso era irrelevante. Nem sabia porque pensava nisso.
 
Lembrava-se daquela noite em que ele disse que daria cambalhotas completamente nu nas pedras da calçada. Havia rido. A ideia pareceu-lhe estúpida na altura, uma frase certamente dita no calor daquele quente momento entrelaçados no carro, mas agora sabia que não. Agora sabia que tinha sido dito com toda a certeza que se podia ter. Agora era tarde.
 
Tal como as ondas que davam à costa, o momento havia passado. Havia perdido a onda. Mas tal como o surfista, estava já na altura, sabia-o agora bem, com o olhar no horizonte a imaginar na onda perfeita que viria certamente ........sempre a próxima melhor que a atual ..... sempre à espera de ter no futuro o que desperdiçava no momento ....
 
..... às vezes pensava .... “e se .....” .....
 
A sua próxima onde veio e nela surfou ..... e que sensação ..... até cair ..... novamente ..... e ao final de um dia, cada queda não é apenas mais uma queda ..... é o somatório de todas as quedas ..... e o corpo começa a ficar moído ..... cansado .....
 
Carolina olhava o mar. Refletia em tudo ..... tentava esvaziar a mente ..... tentava seguir em frente.
 
- Amanhã é um novo dia!
 
Dizia aquelas palavras para si  mesma enquanto ouvia a música no rádio do carro, estacionada no parque. Na rádio passava Kate Perry .... “Roar” ..... nem de propósito!
 
Aquelas palavras vieram-lhe à memória ..... “não te queixes pelo que não tens mas fica feliz pelo que tem” ..... por mais irritada que ficasse quando ele lhe dizia isso ...... sabia que ele tinha razão ..... tinha ..... e estranhamente isso dava-lhe uma força interior e um alento para lutar ..... para querer mais ...... e secretamente agradecia-lhe por isso .....
 
Enquanto ouvia a música, olhava para o mar e pensava naquelas frases roubadas de uma conversa tão pessoal .....
 
E se .....

terça-feira, 1 de março de 2016

Untitled

 
Sentada no seu sofá, em frente à lareira que crepitava, olhava para a pauta vazia. No chão, um monte de folhas amarrotadas estavam dispersas como que se plantadas propositadamente. Mordiscava o lápis nervosamente. Nada. O pentagrama parecia não querer receber qualquer nota. Nada.
 
Deitado a seu lado, o seu Labrador repousava com a cabeça na almofada. A cada folha amarrotada e atirada para o chão, levantava a cabeça, largava um suspiro e voltada a deitar a cabeça de novo na almofada. Esta era mais uma daquelas noites. Seria uma longa noite.
 
Recomeçar de novo. Aquela partitura era cada vez mais semelhante à sua própria existência. Todos os seus medos acumulados impediam uma única nota de fazer sentido. Era como se a folha árida estivesse destinada a ficar assim, despida de razão de ser. Nua.
 
A cada tentativa fracassada, o tormento de novo insucesso tornava a vontade de criar algo uma ideia aterradora. A noite caminhava para o seu apogeu e nada parecia fazer sentido. As notas não colavam umas nas outras. O processo produtivo era uma miragem. Nada.
 
Teria coragem para mais uma tentativa?
Teria coragem de superar o medo de falhar?
Será que ainda tinha música dentro de si?
 
Uma pauta vazia ..... uma vida inacabada .... a coragem de voltar a tentar .... como as coisas mais simples da vida são tão parecidas à realidade ..... uma pauta ..... uma vida.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

É só até ao fim dos nossos dias

 
3:17. Era o que o relógio do telemóvel marcava, pousado sobre o livro que havia em cima da sua mesa-de-cabeceira. Olhou de relance para o livro. Na realidade ele não deveria estar ali mas sim perdido, ou melhor, atirado para uma das inúmeras prateleiras de livros, entre tantos que lá estavam e que nunca seriam lidos. Aquele tinha demorado eternidades a vir da livraria para ali e apenas por vergonha ali estava. Lia por vezes a dedicatória mas não passava dessa parte. E ali ficaria, pelo menos para já.
 
A lembrança daquela agora longínqua viagem de comboio não saía do seu pensamento. Isso ou os pequenos nadas que agora faziam um todo. Dava voltas e mais voltas e não conseguia dormir. Tudo o que vivera depois desse episódio era agora revivido aos poucos. Teria feito bem ou mal. Não conseguia ter a certeza, e essa era a parte que mais a atormentava. Havia ficado presa a um passado e abdicado de um futuro. Agora sabia-o. Agora.
 
À cabeça, para alem de tudo mais, vinham-lhe à cabeça as palavras do Eustáquio que havia aprendido de tanto ouvir .... quando minha escolha é consciente, nenhuma repercussão me assusta. Quando não é, qualquer comentário me balança .....
 
Susana balançava .... muito ..... a prova disso é que não conseguia dormir. Agora sabia-o .... e sabia que agora podia ser tarde demais.
 
4:48. Os ponteiros analógicos dos minutos pareciam martelos a cada movimento. A cada 60 segundos. Sentia-os todos. Raios os partam que não lhe davam descanso.
 
Não conseguia mais ter posição. Olhava para a gaveta e recordava as últimas palavras “não sou um vibrador esquecido na gaveta apenas para quando tens necessidade” ..... e na sua mente formulava uma ideia imaginária de uma lista das suas prioridades para onde o tinha atirado para o final .... mesmo lá em baixo, quase quase na última linha.
 
Agora tinha essa consciência ..... agora .....
 
Levantou-se e vestiu o seu robe bege. Era quente e naquele momento precisava disso. Precisava de um pouco de calor e o toque suave das recordações que o robe lhe traziam. O resto da casa estaria frio, certamente, e ela não queria sentir aquela sensação de vazio assim. Não assim, não ao frio. Era violento demais para consigo.
 
Ligou o aquecedor e foi fazer um chá. À medida que a chaleira aquecia a água, também ela tentava aquecer o corpo e a alma. As mãos em concha por cima da chaleira era tudo o que o seu corpo dorido lhe permita. Escolheu o chá com um leve sorriso nos lábios – “Noites tranquilas” – como ela queria isso agora.
 
Sentou-se no sofá e ligou o equipamento de cabo. Percorreu os filmes e séries que tinha no arquivo e escolheu um filme. Podia ter escolhido qualquer outro, mas inconscientemente escolheu aquele por tudo ..... ou talvez por nada ..... e ficou debaixo da manta quente a apreciar o seu chá e a assistir ao filme. O seu sistema de som surround transportavam-na para dentro da tela.
 
A determinada altura ouviu a parte que mais temia desde o filme tinha começado.
 
- Que dizes? ..... é só até ao fim das nossas vidas ....
 
Uma lágrima desceu pelo rosto de Susana .....


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Apenas um café


No parapeito da janela a chávena fumegava. Joana tinha deixado a chaleira tempo a mais ao lume e agora o seu chá repousava calmamente ao fresco da manhã. A sua gata estava deitada ao lado, apreciando a azáfama da rua em baixo de si, enquanto o calor que a chávena libertava a aconchegava.
Era um quadro lindo que um fotógrafo de ocasião na rua aproveitava.

A beleza de Joana tinha-lhe despertado a atenção ao fotografar as fachadas de um prédio na rua, e por ali ia ficando, fotografando ao acaso, na esperança de ela voltar a aparecer. A cada dois ou três disparos olhava para a janela dela. A gata era um bom pretexto, e ainda por cima era uma fotografia para prémio da semana no site onde ele publicava as suas fotografias. E ia fotografando e esperando. Pacientemente.

Ainda por ali ficou mais um pouco, mas acabou por se render e resignar. Aquela linda figura tinha aparecido fugazmente na sua vista e voltado para o Olimpo. Só assim se explicava tamanha beleza e seu desaparecimento. Ele queria acreditar que assim era, sorrindo ao imaginá-la a ganhar asas e a fugir para o seu lugar natural. E com o mesmo sorriso, voltou a percorrer aquele bairro tão pitoresco e que tanto potencial de fotografia tinha.

Juan continuou o seu trajeto, fotografando pessoas, casas e pormenores arquitetónicos. Tirou algumas das melhores fotografias a P&B que se lembrava de ter tirado, especialmente à Dª. Maria que sentada à porta, fazia o seu croché enquanto contava uma história à sua netinha. Ela lembrava-lhe a sua própria avó, e isso tornava aquela fotografia ainda mais especial.

Aos poucos e poucos, o cansaço de tantas ruas palmilhar e o peso das máquinas fizeram-no querer repousar um pouco. Lembrou-se que 2 ruas abaixo de onde se encontrava tinha estado num miradouro lindo sobre a cidade, e para lá se dirigiu. Um sumo de laranja natural far-lhe-ia maravilhas e a vista era um sonho ..... um breve vislumbre sobre a ideia que tinha de Santorini, onde queria brevemente ir. Mas não queria ir sozinho, não a Santorini.

Ao chegar à esplanada o seu coração parou. Na mesa mais à frente, estava aquela obra de arte que havia visto à janela e nela desaparecido. Tentou ganhar coragem para dela se acercar e meter conversa .... seria fácil ......

- Hola. Puedo sentarme?
- Claro .... disse Joana instintivamente enquanto tirava os olhos do livro que lia
-  Yo soy Juan e voce es una hermosa mujer
- Obrigado. Você é sempre assim atrevido?
- No .... pero no resisti

Seria tão fácil .....mas a beleza dela era tal que Juan apenas se sentou umas mesas mais atrás ..... esteve quase a ganhar coragem mas no último momento não conseguiu ..... tinha medo de ser corrido e por isso preferiu sentar-se longe ..... aqueles segundos onde tudo ou nada podia acontecer ..... claudicou. Na sua cadeira longe, ficou a apreciar aqueles longos cabelos negros e o sorriso de menina. Apenas a apreciar.

Passado pouco tempo, Joana pagou a sua despesa e desapareceu entre a multidão ..... o medo do que podia ter acontecido foi superior ao ganho do que poderia ter sido ..... havia perdido e sabia-o bem ..... certos momentos não se repetem e certas vidas perdem-se por coragem de arriscar ..... viu Santorini desaparecer na multidão com ela .....

Juan olhou para o pacote de açúcar Nicola que acompanhava o seu expresso ..... “Um dia vou deixar de sonhar ..... hoje é o dia”. O seu pouco Português dava-lhe para perceber o texto ..... sorriu .

..... hoje não tinha sido o dia ..... momentos ..... da próxima vez  ..... talvez.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Decidir mudar

 
Entre o dever e o querer existe uma grande distância. Deveríamos fazer ou deixar de fazer muita coisa por questões de saúde, dinheiro ou relacionamento, mas nem sempre o conseguimos deixar de fazer. Querer é meio caminho andado, mas apenas isso, meio caminho. Falta o outro meio.
 
É fácil para qualquer um de nós pôr a mão na consciência e enumerar um rol de coisas que sabemos que deveríamos mudar em nós. É fácil identificar as coisas que não gostamos quando olhamos para o espelho ou que nos nossos mais profundos pensamentos sabemos ser contrários aos nossos valores ou crenças. Fazer a lista é fácil. Se fosse apenas por fazer uma lista, até nos poderíamos dar ao luxo de ser honestos a fazê-la. A generalidade conseguiria. Mas isso é apenas metade do caminho.
 
Como uma amiga minha dizia, lá no andar de cima até podemos ter tudo muito claro, o certo e o errado, o bem e o mal, porém, mudar não é fácil. Mudar é mesmo muito complicado para muitas pessoas ou, mesmo para as mais fortes ou resilientes, existem sempre aspetos que não conseguimos mudar. É como as dietas, que se iniciam sempre na 2ª-feira seguinte ..... e com isso ganhamos uns dias ..... e terminam logo na 4ª-feira, depois de uma série de desculpas para não conseguir manter essa resolução. A não ser com um susto que nos faça abalar as nossas inércias, poucos conseguem mudar por mudar. Mudar por querer. Quebrar os vícios do passado, recente ou longínquo ..... mudar no que realmente queremos mudar.
 
É sempre fácil justificar cada uma das “facadinhas” na nossa resolução, mas a explicação do porquê, isso sim, é difícil .... ou fácil demais ... porque sim ..... mudar é mesmo difícil ..... mesmo tendo toda a consciência do que queremos mudar, nem sempre o conseguimos fazer. Custa para burro.
 
Nem de propósito uma amiga colocava um texto no Facebook que melhor termina este pequeno post .....
 
Acreditar é essencial,  mas ter atitude é que faz a diferença!


segunda-feira, 15 de junho de 2015

The meaning of life

 
Muito poderia ser dito e escrito sobre esta simples, mas complexa frase. Muito já foi efetivamente dito e escrito. Para quem já viveu num paraíso e caiu ao inferno da realidade, e que teve de ir buscar forças nos olhos de um inocente, custa ver outros a passar pelo mesmo.
 
Tenho visto desde pessoas que não sabem apreciar o que têm, dando mais importância ao que não têm ou que lhes virou as costas. Tenho visto pessoas que por não saberem o que querem estão sempre tristes e tenho visto uma miúda que gostaria de ser “apenas” normal mas a doença não lhe permite. Ouvir estas primeiras e ver esta última, comparando as suas histórias, dava muita tinta para escrever. É certo que cada um tem os seus problemas .....é certo, porém, não reconhecer que a vida lhes permite ter uma opção é quase criminoso. Nada fazer com essa opção ainda pior é.
 
Nesta altura do texto muitos certamente dizem que a falta de dinheiro em tudo manda, e que se tivessem mais dinheiro certamente seriam mais felizes. Eu por brincadeira digo sempre que o marmelo que tem 10 milhões não é mais feliz que o que só tem 9 milhões. Mas a partir de certo ponto na nossa cabecinha, não é o dinheiro que permite sermos ou não felizes. Ajuda muito em termos de serenidade e de fazer muito mais coisas que são onerosas, mas, não é isso que faz a diferença. Basta olhar para uma criança a brincar com o que apanha à mão.
 
Quando a nossa expectativa é grande, muito fruto de uma sociedade de consumo que exacerba o sucesso pessoal e profissional, claro que o dinheiro faz a diferença .... mas realmente é importante .... cada uma saberá responder por si.
 
Acho que devemos a quem já não pode fazer, o apreciar da vida como ela se apresenta, tentando desfrutá-la ao máximo. Eu tento-o fazer .... sem objetivos ou sonhos, mas apreciando o que cada dia me dá ...
 
Olhem sempre para o lado FIXE da vida


domingo, 5 de abril de 2015

Consegui!

 
Mais um dia que chegava ao fim. O relógio marcava 22:34 e na televisão anunciavam com pompa e circunstância uma “bomba” que seria dada no último noticiário do dia. Mais um dia que terminava e o seu ânimo estava pelas ruas da amargura.
 
Andava há mais de 3 meses a tentar terminar o livro que há muito se havia proposto mas a inspiração faltava e nada parecia sair bem. Ou ficava deitado no sofá, olhando para o vazio com a vista posta na televisão, ou afagava suavemente o pelo dos seus dois belos e simpáticos cães. Até a consola de jogos há muito que estava esquecida a um canto ..... nem bateria os comandos já tinham. Não tinha energia para mais. Não conseguia.
 
Foi-se deitar. Nada mais tinha vontade de fazer.
 
O dia seguinte trouxe-lhe outra vida. Acordou tarde com o ruído dos seus meninos na porta a pedir carinho, atenção e, já agora, comida e passeio. Olhou para o relógio. Já passava das 11:30! Saltou da cama assustado ..... ao que se tinha deixado chegar. Tinha de fazer algo por si.
 
Deu de comer e beber aos seus meninos e depois guardou algum tempo para si. Entrou no chuveiro e demorou-se o tempo que quis, saboreando a água quente que lhe caia em cima da cabeça. Adorava aqueles momentos, porém, durante a semana não havia tempo para os apreciar. Agora podia. E assim o fez. Ficou mais de meia hora assim mas pareceu-lhe que foram 2 horas. Que revigorante eram aqueles minutos,  mesmo ficando um pouco mole da humidade que se havia formado. Depois de se vestir, colocou as trelas aos seus meninos e saiu para a rua. Teve de meter os óculos escuros pois os raios solares queimavam-lhe os olhos ..... e não tinha ido para os copos. Já fazia algum tempo que não o fazia, diga-se.
 
Hoje não tinha pressa. Apreciava o passeio tão ou mais que os seus cães, divertindo-se com a interação destes com os outros, com as crianças que lhes vinham fazer festas e que se deliciavam com as lambidelas que recebiam. Os seus meninos estavam contentes e ele também. Por entre muitas marcações de território e cheirar a relva, achava piada a fogosidade com que tentavam ir atrás dos gatos que timidamente se escondiam entre as folhagens. Foi um passeio bem maior que o habitual mas estava contente. Estavam todos contentes.
 
Após deixar os seus meninos em casa, pegou no seu carro e fez-se à estrada. No banco de lado repousava um tablet e uma máquina fotográfica. Saiu sem destino, apesar de se sentir compelido numa certa direção. Não sabia explicar o que sentia, apenas que o sentia. E foi andando e andando, até dar por si a entrar num pequeno caminho de terra que se dirigia ao mar. Levou o carro até onde podia, que era mesmo ao lado de uma esplanada com muito bom aspeto. Entrou nela e escolheu o que lhe pareceu o melhor lugar possível. Debaixo de uma sombrinha com vista para o mar e uma enseada que se formava um pouco à sua direita. Que vista maravilhosa.
 
Sentia-se em paz consigo mesmo. Ao invés de mais um dia a procrastinar em casa, saiu com um objetivo. Um fim. E todo aquele ambiente deu-lhe uma força interior para pegar no tablet e retomar a sua escrita. Leu o que tinha escrito na sinopse e no último capítulo, revendo os seus apontamentos de como queria dirigir o enredo que havia criado há muito tempo atrás. Tanto tempo que já nem se lembrava quando tinha começado, apenas que mais uma vez tinha começado algo que parecia destinado a não ter um fim. E ele precisava de dar fim ao que começava.
 
Foi pedindo bebidas e aperitivos. Parecia que quanto mais escrevia, mais lhe apetecia escrever. E quando deu por si, sentiu que tinha quase terminado o seu livro. Quase. Faltava um último parágrafo com algo que não conseguia explicar, mas no seu íntimo, sabia que faltava ali algo. Mais uma vez, não conseguia acabar. Era como se tivesse atravessado o oceano a nado e fosse morrer afogado na costa. Quebrou.
 
Não querendo dar novamente parte de fraco e não ser ainda desta que terminava, pousou o tablet ligando-o à corrente que felizmente ficava por perto. Pegou na máquina e bateu umas chapas. Sem querer tinha colocado a lente de 300 mm e ia fotografando pormenores soltos. Para além das pessoas na praia em frente, fotografava também as famílias que estavam na esplanada, capturando a preto e branco todos os pequenos pormenores que ia descobrindo. Na praia e pela posição do sol, tirou fotografias em contraluz de uma rapariga com um corpo espetacular. Mesmo com semanas de preparação dificilmente teria conseguido planear semelhante enquadramento. E aproveitou enquanto lhe apeteceu.
 
Pegou novamente no tablet e relia o que tinha escrito até que uma voz se fez ouvir atrás de si:
- Satisfeito com as fotografias? Já observou tudo o que tinha para observar?
 
Olhou instantaneamente para trás, não reconhecendo a voz. Era a rapariga a quem tinha estado a tirar fotografias, e não parecia nada contente.
 
- Já sim. Se sim era à satisfação das fotografias e apenas a isso
- Não sabe que é feio estar a espiar as pessoas? É por isso que venho para praias desertas, para fugir a mirones indiscretos
- Peço desculpa ..... apreciava a beleza pela beleza ..... e você é de facto uma bela mulher!
 
Notou na cara dela que as suas últimas palavras ainda a tinham deixado mais furiosa, ao pondo de achar que ela lhe ia bater. Foi preciso muita diplomacia para no meio de ameaças de polícia e exigência de que apagasse todas as fotografias, ela se sentasse à mesa para falarem com calma. Aquela fúria genuína ainda a tornava mais bonita, algo que apenas agora conseguia ver.
 
Mais calma agora, Joana ouviu a explicação sobre como tinha feito um intervalo para conseguir terminar a escrita e como apreciador de boas fotografias, se tinha distraído a fotografar a beleza que o rodeava. Apesar de desconfiada que era uma grande tanga, Joana pediu para ver o que ele tinha fotografado e o que era uma expressão dura rapidamente se transformou em calma e um sorriso nos lábios. As fotografias dele eram muito boas e naquelas que ela aparecia eram indiscutivelmente sublimes. O seu semblante pesado desapareceu para dar lugar a um olhar doce e meigo de quem se sentia envergonhada.
- Desculpa ..... não me estavas a espiar
- Não ..... mas não posso deixar de dizer que a tua bela figura deu-me fotografias de cortar a respiração
 
Ela corou ligeiramente. E com isto conversaram durante muito tempo. Depois de ele lhe explicar o bloqueio que tinha, ela ofereceu-se para o ajudar lendo o último capítulo.
 
- Parece muito bom, mas concordo contigo, falta-lhe algo
- Eu sei ..... é a história da minha vida ..... falta-me sempre algo
- Porque não terminas deixando no ar algo vago ..... para quem ler levar-se nas asas da imaginação
- Boa ideia ..... espera
 
Rapidamente pegou no texto e escreveu um último parágrafo. A figura principal estava numa esplanada e ao tirar fotografias, foi interpelado por uma bela rapariga que se sentiu ofendida, e, depois de muito conversarem, combinaram um jantar no dia seguinte para continuarem a conversa, uma vez que sentiram que já se conheciam há muito tempo e nenhum deles queria ir-se embora. Terminado o parágrafo, deu-o a ler à sua nova crítica.
 
Joana leu o texto e sorriu. Terminada a leitura, digitou algo no table, entregou-lhe com apenas uma palavra:
- Adeus
 
Estupefacto, não conseguiu esboçar qualquer outra reação senão somente segurar o tablet. Ficou a vê-la sair, parecendo-lhe cada vez mais bonita. Após este choque inicial, lembrou-se que a viu digitar algo e olhou para o texto. Joana tinha acrescentado algo no fim ..... o seu número de telefone e a hora a que queria que ele a fosse buscar.
 
Sorriu. Internamente gritou bem alto:
- Consegui ..... terminei o livro!
 
Dedicado ao meu Pantufas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Jogos de estratégia – Lições de vida

 
Às vezes um jogo é uma lição de vida. Um simples jogo de estratégia, neste caso o Risk, pode-nos fazer pensar um pouco na volatilidade com que pequenas opções e conjugações de fatores, podem fazer ruir toda uma estratégia aparentemente ganhadora. No fundo, a teoria do Chaos a acontecer num jogo de tabuleiro.
 
Fruto de uma vantagem tática em termos de superioridade de territórios ocupados e tropas no terreno, não tive em atenção vários fatores estrategicamente relevantes. Estava a encurralar um adversário num canto do mundo e outro no canto inverso. Duas frentes de batalha nunca são fáceis e esta até estava bem encaminhada, porém, em 2 jogadas tudo ruiu.
 
Descorando a regra básica do xadrez, de pensar sempre várias jogadas mais à frente, não tive em atenção que o meu adversário seguinte teria de obrigatoriamente trocar de cartas, e como tal não protegi convenientemente essa zona do tabuleiro. Ao deixar um dos diques ruir, isso fragilizou a outra batalha, o que por si poderia não ter sido mal de todo mas, os ataques desferidos por ambos foram ocasionalmente nas áreas que em conjunto poderiam fazer mais estragos ..... e fizeram. Apenas um deles poderia aproveitar essa vantagem tática momentânea e, como bom jogador estratega que é, assim o fez. Fui dizimado em 4 jogadas.
 
Tão importante como delinear uma estratégia que acreditamos ganhadora, é fundamental não nos desviarmos muito do caminho traçado. E sendo a vida um grande tabuleiro, ganha quem tem a melhor estratégia e consegue antecipar ao máximo as jogadas seguintes. Ter os olhos no objetivo final é indiscutivelmente o mais importante, porém, se toda a nossa atenção apenas se focar aí, podemos apanhar um golpe lateral sem estarmos preparados para isso, e nem sempre podemos conseguir recuperar. Qualquer boxer num ringue o sabe.
 
Aprende-se muito com as pequenas derrotas da vida ..... extrapolar pequenos nadas pode ser uma lição ..... haja a humildade de perceber isso.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Período Sabático

 
O equilíbrio é algo fundamental na nossa via e somos ensinados dessa forma desde pequenos. Já nos tempos de fraldas, quando tínhamos de beber um xarope doce ou vitaminas saborosas, queríamos sempre mais, porém, os nossos pais bloqueavam essa vontade com a explicação mais simples de todas ….. o que é demais, estraga ….. faz mal.
 
Neste aspeto convém fazer uma exceção de autor ….. eu não acredito que o mimo a mais faça mal. Não o é com as pessoas que amamos, incluindo conjugues e filhos. Não é o mimo a mais que faz mal. O que faz mal é o ultrapassar de barreiras, muitas vezes cívicas e de educação, que por laxismo dizemos que é mimo ….. não é …… pode-se dar mimo e manter a educação. A falta de mimo é um dos grandes motivos pelo qual as relações esmorecem ….. sejam elas qual forem. O mimo é a exteriorização do que nos vai na alma ….. para quem consegue exteriorizar, claro.
 
Vivemos intoxicados com as novas tecnologias e, especialmente em Portugal, tornamo-nos uns infoexcluídos se não seguimos a moda ….. o iphone, o ipad, o wireless a toda a hora, o Facebook, o Twitter, o Instagram, etc, etc, etc. Quem não existe na Net, parece que não existe. Há poucos dias falava com um amigo que deixou de publicar no seu blog para publicar apenas no Facebook. A diferença de leitores, segundo ele e eu acredito, é como comparar um jogo no campeonato distrital com um jogo da primeira divisão. Qualquer político que se preze, especialmente se for deputado ou candidato às eleições seguintes, tem de ter uma página no Facebook e Twittar como se não houvesse amanhã.
 
Mas o Facebook é um pouco como o Big Brother. Expomos muito mais a nossa vida que por exemplo num blog, pois colocamos fotografias, amigos, locais onde estamos ou estivemos, etc, etc, etc. É muito bom para os caçadores de relações esporádicas ….. ou pretensamente duradouras ….. para fins comerciais, o que inclui os políticos pois estão a vender-se a eles próprios, para expor pensamentos ou sentimentos ao mundo e para mim, a melhor de todas elas, poder dar os parabéns aos amigos que de outra forma nunca saberíamos que faziam anos.
 
E é como um vício. Dizemos que não vamos publicar nada e depois ….. é só um post ….. tal qual uma dieta, que dizemos ser rigorosa mas existe sempre aquela situação especial ….. e pimba!
 
Entrei em período sabático, não sei por quanto tempo. Gostava do Facebook para pensamentos esporádicos, dar os parabéns aos amigos, falar com algumas amigas em chat e recentemente, de partilhar as fotos tanto minhas como do filhão ….. e que bom era ver os likes e os comentários positivos. Mas preciso de uma pausa ….. de um período back to basis ….. às vezes faz falta.
 
Saí do Facebook ….. não tenho pena ….. um dia destes volto ….. quando me apetecer.
 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Então era assim!

 
A lei que restringe o fumo de tabaco nos locais públicos, com especial ênfase nos restaurantes, já está implementada há tanto tempo que já vamos perdendo alguma memória do antes. Depois de muita polémica, de muitas vozes que prometeram uma insurreição geral, como é típico em Portugal, acatámos as novas regras e a vida seguiu o seu curso.
 
Hoje em dia a memória do ambiente de fumo, que retirava muitas vezes o doce cheiro dos petiscos está quase banido. Poucos são os restaurantes que adotam as áreas de fumadores, não pela beleza ou generosidade da lei mas pelo que custa estar de acordo com os regulamentos. E graças á efetividade cada vez maior das inspeções, não compensa a transgressão. É das poucas áreas em Portugal que não compensa, diga-se.
 
Encontro-me a escrever este texto num pequeno bar de praia, em Aveiro, onde é permitido fumar. É tão estranho este cenário, que não deixa de chamar a atenção. E como as pessoas foram-se desabituando de fumar nos restaurantes, excepto nas esplanadas, a verdade é que são poucos os que estão de cigarro na boca. É impossível não dar atenção a esse aspeto.
 
Há algum tempo tive a oportunidade de almoçar 2 vezes num restaurante, uma delas na sala de fumadores porque não havia mais nenhuma mesa livre e, posteriormente, na sala de não fumadores, que por acaso até acho ser mais pequena que a outra. Que diferença! Notava-se que a extração de fumo era muito boa, mas o cheiro estava presente e incomodava ….. já nem me recordava a última vez que tive uma refeição estragada pelo fumo.
 
Felizmente que locais como estes são escassos, mas permitiu uma viagem ao passado para lembrar de como era no passado ….. e como é bom utilizar este tempo verbal.
 


domingo, 4 de maio de 2014

Cantinhos de Portugal

 
Já não é a primeira vez que escrevo sobre pequenas pausas, escapes à nossa realidade que, em locais bem escolhidos, transformam pouco tempo em autênticas férias. No que se refere ao bem escolhido é o local e naturalmente a companhia, uma vez que “um homem não é uma ilha”. Fugimos à nossa realidade por breves instantes mas parece uma eternidade.
 
Este fim-de-semana o escape foi com o filhão a Norte, num pequeno tesouro de Portugal. Uma pequena propriedade de turismo de habitação, perto de Vouzela e São Pedro do Sul, com uma vista deslumbrante sobre o vale do rio Vouga e as serras de Freitas, da Arada, de São Macário e de Montemuro. Um pequeno cantinho chamado de Paço daTorre. Lindo!
 
Uma casa com 500 anos recuperada com muito bom gosto, mantendo parte do edifício que é o encanto destas casas, nomeadamente as arcadas de pedra que se transformaram num jardim interior. Quartos espaçosos com uma pequena varanda saída com uma pequena mesa e 2 cadeiras com vista do vale. Situada numa zona com várias propostas de passeios pedonais, que desta vez não iremos aproveitar, e mesmo um pequeno cantinho, daqueles que descobrimos por acaso e que decidimos experimentar, e em boa hora o fazemos.
 
O filhão nomeou o local como o nosso refúgio para a escrita. Este post está a ser escrito à beira da piscina, daquelas projetadas que parece que vamos cair na paisagem, sentado numa cadeira com o filhão pouco mais ao lado a escrever o seu livro. Depois de manuscrever várias páginas encontra-se agora a passar para formato eletrónico. Um fim-de-semana de escrita, como ele se refere. Um descanso e bom para libertar a cabeça dos problemas do dia-a-dia.
 
Não é certamente o fim-de-semana que queríamos, especialmente pela data de hoje, mas é o melhor que podemos ter e isso é o mais importante. Era bem mais agradável quando estas saídas eram mais concorridas ….. por mais que adoremos estar um com o outro, a companhia feminina faz-lhe falta e ele gosta de não sermos apenas os 2 ….. mas a nossa realidade agora é esta. Apenas os 2 até ao momento que ele arranjar as suas próprias companhias. Como gosto de dizer, sem lamechices ….. é a vida.
 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Um dia ..... outra vida

 
A generalidade das pessoas procura um sonho ….. o dia perfeito ….. a relação perfeita ….. o marido/mulher perfeita ….. o sonho. A generalidade procura e apenas alguns encontram ..... é a vida.
 
Mas a perfeição é uma bênção e ao mesmo tempo uma maldição ….. uma boa maldição, mas mesmo assim, uma maldição. Felizes os malditos.
 
Mas não ter a relação ou o momento perfeito, é uma maldição pois faz com que na generalidade das vezes, faz com que se vá à procura de algo que apenas existe nos filmes ou que ouvimos falar de alguém que viveu essa raridade. E quando se vai atrás de um sonho, perde-se todo o tempo dessa procura ….. isto quando não se encontra, claro está.
 
Ás vezes um dia inesquecível acontece ou algo acontece que torna o dia inesquecível ….. ver o vídeo.
 


domingo, 13 de abril de 2014

O "infeliz" poder dos media

 
Às vezes quando acho que graças aos novos meios de comunicação a tradicional comunicação social já perdeu o seu peso e o seu impacto, algo acontece para me trazer de volta à realidade. Não é apenas um José Rodrigues dos Santos que se acha mais esperto que um político demasiado batido para um mero amador chico esperto. Como ele existem vários que têm o poder de massificar uma mensagem errada, fruto das suas opiniões ou distorções da realidade. No caso do JRS a questão não é tanto a mensagem ou a pertinência ou não do que se passou, é a utilização de um palco de forma pessoal ou encomendada. É uma pena.
 
Nos últimos tempos houve 2 figuras nacionais que foram uma referência pela positiva na luta que milhares todos os dias têm contra as doenças oncológicas. Estou a falar da Fernanda Serrano e do Manuel Forjaz. A primeira sobreviveu e o segundo infelizmente para ele e para a sua família, não. Este último não baixou os braços e lutou enquanto pode para vencer a doença. Consultou médicos, experimentou abordagens, consultou especialistas, informou-se e manteve-se informado e, mais importante que tudo, manteve sempre a esperança de vencer.
 
Mais importante de tudo ..... não se deu por vencido ...... e isso é um exemplo e uma referência.
 
Algures durante o seu percurso, acompanhado por milhares (ou mesmo milhões), teve algumas frases que expressavam bem a sua resiliência. Uma delas, amplamente difundida, é que o cancro não o iria derrotar. Quem leu um pouco o que ele foi escrevendo terá certamente percebido o que ele quis dizer ..... o cancro podê-lo-ia matar, mas não o iria quebrar, atirando-o para um estado vegetativo de letargia à espera da morte ..... ele tudo iria fazer ..... e fez ..... para que o cancro não o "quebrasse".
 
Mas a doença é cruel e o acreditar não é suficiente ..... eu que o diga que assisti e vivi o mesmo ..... certas patologias são irreversíveis e só a vontade não chega ..... em certas situações faz toda a diferença, noutras é curto ..... foi este também o desfecho do Manuel Forjaz ..... mas vendeu cara a luta e o desfecho final.
 
Ele não foi vencido pelo cancro ..... perdeu foi a luta ..... mas lutou até ao fim!
 
Capa de um pasquim feito por um jornalista que devia ter vergonha de se intitular como tal ..... algo do género ..... "Afinal o cancro venceu o Manuel Forjaz". Dizer isto é querer ter uma primeira página bombástica e não olhar a meios e a fins para o conseguir. Numa só frase, para além de demonstrar uma ignorância ignóbil para quem tem uma responsabilidade social a cumprir, matou parte da mensagem de um homem que era um exemplo para muitos na mesma situação. Lamentável.
 
Quem está numa situação destas precisa de exemplos de coragem ..... independentemente do resultado ..... precisa acreditar para lutar ..... precisa de um estímulo ..... de um pequeno farol no meio da tempestade ..... precisa de saber que a sua mente pode fazer a diferença ..... saber que tal como ele, outros passam pelo mesmo e acreditam ..... precisa de exemplos.
 
O cancro não o venceu, porque ele nunca quebrou ..... a doença apenas foi superior ..... o resultado é o mesmo, o sentido é completamente antagónico.
 
Ao pasquim e ao autor do título os meus sentimentos ...... tenho pena que alguém não tenha dito a frase que já vários ouviram ..... porque não te calaste!